terça-feira, 27 de maio de 2008

BOCAGE E CAMÕES épocas diferentes, diferentes destinos

É um dos nossos melhores poetas, e depois de Camões o mais popular e celebrado de todos. Nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, faleceu em Lisboa a 21 de Dezembro de 1805. Filho de um português e de mãe de ascendência francesa (erada célebre poetisa francesa, madame Marie Anne Le Page du Bocage). Em 1779 assentou praça de cadete no regimento n.º 7 de infantaria de Setúbal. Veio estudar para Lisboa aos 14 anos de idade. 0 desprezo constante pelos actos do ex-ministro de D. José, levara os conselheiros da rainha D. Maria I a criar em Lisboa, em 5 de Agosto de 1779, uma instituição, a que chamaram Academia Real de Marinha, equiparada à Universidade. Foi neste Instituto que Bocage recebeu a sua educação científica, mais tarde foi aperfeiçoá-la na Academia dos Guardas Marinhas. As paixões levianas eram tudo para Bocage. As damas constituíam o seu único pensamento. Confiando nos seus dotes de claro entendimento, estava tão certo de agradar às belas, que notava com espanto a resistência dalguma, que porventura se esquivava aos seus galanteios. Tomava como correspondência amorosa o aplauso unânime que obtinha nas salas ao recitar os seus versos. E assim viveu sempre em toda esta primeira fase das suas aventuras, a amar e a padecer. 0 nome de Gertruria tornava-se o seu pensar constante (anagrama imperfeito de Gertrudes) foi este nome que por muito tempo o inspirou. Era asfixiante o ambiente que então se respirava na capital. Por um lado os medos da propagação das doutrinas filosóficas traziam empenhados o tribunal da Inquisição, por outro lado não estava ainda extinta a luta dos ódios contra o marquês de Pombal, a quem as famílias dos nobres, por ele castigados, acusavam violentamente, imputando-lhe acções desonrosas, delitos infamantes, e tentando reabilitar-se como inocentes no atentado contra el-rei D. José. Época de incertezas, de dúvidas, de receios e de perseguições. Como poderia florescer no mais elevado grau a literatura portuguesa, embora tivesse por cultor um génio como Barbosa du Bocage? 0 gosto de então eram as canções brazileiras, cantadas à guitarra ou à viola, nas reuniões de família ou nas orgias dos botequins. Todos os poetas davam à porfia letras para estas árias, e Bocage não foi dos menos pródigos. O poeta, que sempre sonhava parecer-se o seu destino com o de Camões, que só invejava a imortal glória do grande épico, comparava a sua mocidade livre com a que tivera, e pensava porventura que também este na corte compunha e recitava versos, requestava donzelas, e cantava a Natércia. Camões tinha ido ao Oriente, Bocage foi também. Em 1786, partia o nosso poeta a visitar as terras que inspiraram o imortal cantor dos Lusíadas. Ia procurar novos horizontes para melhor desenvolver as suas formosíssimas concepções poéticas. A nau de viagem arribou ao Rio de Janeiro, por causa de tempestade que se levantou. Bocage ali se demorou, sendo muito bem recebido pelo vice-rei do Brasil, Luís de Vasconcelos e Sousa, e pela melhor sociedade fluminense. Em 1786 chegou finalmente a Goa. O engenho e a arte de Bocage poderia elevar-se imenso, se houvesse tido outra educação literária e científica, e soubesse subtrair-se à influência do meio social em vez de buscar nele efémera popularidade. Camões era não só um génio, mas o primeiro sábio da sua época. Bocage aprendera bem as línguas, o latim, o francês e o italiano, mas trocara tudo isto pelo culto exclusivo das musas, os conhecimentos de ciências naturais, que alcançara nas academias de marinha. Foi por tudo isto, certamente,que ao chegar a Goa nem se impressionou com a luxuriante vegetação oriental, nem com as religiões, raças, línguas e costumes daqueles povos, e continuou cantor da arcádia preso às regras horacianas, e não conseguiu produzir um poema.
Satirizou os índios ( o que me desagrada muito), lamentou em magníficos versos a decadência de Goa e das possessões portuguesas. Em Goa encontrou muita estima no desembargador Sebastião José Ferreira Barroco, também poeta, e um dos maiores amigos de Filinto Elísio. Em 1789 era promovido a tenente, de infantaria da 5.ª companhia da guarnição da praça de Damão, onde chegou nesse ano, mas logo dois dias depois dali desapareceu em companhia doutro oficial da mesma praça, indo ter a Macau, onde sofreu em resultado desta aventura. 0 que obrigaria Bocage a desaparecer tão precipitadamente da praça de Damão, e a apresentar-se na colónia de Macau? Imitar Camões, o prazer de visitar todos os lugares que ele percorrera? Seria apenas pelo seu espírito volúvel? Ninguém o poderá dizer, talvez nem ele o soubesse. Nestas paragens foi ainda mais infeliz do que na Índia, e só teve dois homens que lhe valeram: Lázaro da Silva Ferreira, governador de Macau, que o não pronunciou por haver desertado de Damão, e o negociante Joaquim Pereira de Almeida, que recebendo-o e dando-lhe agasalho o apresentou na sociedade macaense. Mas absolvida a culpa, o poeta não descansava com saudades da pátria, dos amigos e dos amores. Partiu para Lisboa onde chegava o eco da revolução francesa (1789). A liberdade era o hino que se cantava às escondidas por toda a parte, porque a polícia estava cada vez mais intransigente. 0 poeta cantou logo contra o despotismo, chamando-lhe sanhudo, inexoravel, monstro que em pranto, em sangue a furia ceva, mas que não tyranisa do livre coração a independencia, e compôs muitos sonetos em honra da liberdade. Eram estes os sentimentos políticos de Bocage e de todos os sócios da Nova Arcádia, salvas poucas excepções. Nem escapava ao influxo o padre José Agostinho de Macedo, ex-frade graciano, amigo do vate no seu regresso ao país, mais tarde seu declarado inimigo, e por fim reconciliado com ele no período curto da fatal doença que o prostrou. A Nova Arcádia, chamava-se uma sociedade de poetas daquela época, para onde Bocage entrara em 1791, tomando o nome pastoril de Elmano Sadino, e contra a qual se indispôs em 1793. Em todo o tempo que durou esta guerra com os seus colegas, levantada por vaidades de poetas e de literatos, jogaram-se as mais acerbas sátiras e vibraram-se epigramas os mais frisantes. 0 forte despotismo da época não podia deixar de perseguir a quem possuía sentimentos liberais, e Bocage era pouco acautelado. Em 1797 foi denunciado à intendência da polícia, por uns papeis ímpios, sediciosos e satíricos, que apareciam clandestinamente com o título de Verdades duras, e continham entre outras coisas a epístola Pavorosa illusão da eternidade. Bocage tentou fugir, mas foi preso.

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